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porto velho, quarta-feira 14 de outubro de 2026

PORTO VELHO-RO: O resultado das eleições de 2026 em Rondônia produziu uma contradição difícil de ignorar. Mesmo com problemas graves e antigos na saúde, na educação e na segurança pública, o eleitor decidiu manter no poder grande parte dos parlamentares que já ocupavam cadeiras na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados.
A renovação foi pequena diante do tamanho das reclamações acumuladas ao longo dos últimos anos, mesmo no plano federal onde trocou apenas três dos representantes.
Na prática, as urnas deram sobrevida política a uma representação que atravessou mandatos inteiros convivendo com filas na saúde, deficiência estrutural em serviços públicos, cobranças na educação, avanço da criminalidade e sucessivas crises que atingem diretamente a população.
Se o voto funciona também como instrumento de avaliação, o resultado permite uma leitura incômoda: apesar da insatisfação registrada diariamente, a maioria do eleitorado não considerou suficiente o desempenho dos atuais representantes para promover uma mudança expressiva.
É como se os problemas permanecessem, mas a conta política raramente chegasse a quem ocupa os cargos.
Na saúde, as queixas envolvendo demora no atendimento, falta de vagas, sobrecarga hospitalar e dificuldades enfrentadas por pacientes continuam fazendo parte da rotina. Na educação, permanecem cobranças por estrutura, qualidade e valorização dos profissionais. Na segurança pública, episódios de violência e a atuação do crime organizado mantêm o tema entre as maiores preocupações da população.
Nada disso, porém, provocou uma ruptura eleitoral relevante na cabeça do eleitor.
O cenário também não é novo na política de Rondônia.
Governadores do passado, conseguiram ser reeleitos à época, mesmo atravessando períodos marcados por forte desgaste em áreas essenciais. Ivo Cassol conquistou um segundo mandato. Confúcio Moura também foi reconduzido. Marcos Rocha repetiu o roteiro anos depois.
Em diferentes momentos, saúde e segurança pública estiveram entre os principais focos de críticas às respectivas administrações. Ainda assim, os problemas não impediram a continuidade política nas urnas.
O fenômeno ajuda a revelar uma característica do comportamento eleitoral no Estado: a indignação com o serviço público nem sempre se transforma em voto de punição.
O cidadão reclama da falta de atendimento, da violência, das condições das escolas e da ausência do Estado, mas frequentemente separa esses problemas da responsabilidade direta dos políticos que escolhe.
Deputados e demais lideranças também conseguem construir redutos eleitorais por meio de emendas, alianças com prefeitos, vereadores, associações e lideranças locais. Com isso, o desempenho individual passa a ser avaliado muito mais pela capacidade de levar recursos para determinados grupos ou municípios do que pelo quadro geral do Estado.
Forma-se, assim, uma espécie de paradoxo eleitoral.
A saúde pode estar em crise, mas o deputado que destinou uma emenda para determinada cidade continua forte.
A segurança pode ser motivo de preocupação, mas o parlamentar que mantém bases organizadas preserva seu eleitorado.
A educação pode enfrentar deficiências, mas a responsabilidade política acaba diluída entre governos, secretarias, municípios e legislativos.
No fim, quase ninguém paga sozinho a conta.
E talvez esteja justamente aí uma das explicações para a longevidade política de tantos nomes em Rondônia.
O eleitor demonstra insatisfação com o sistema, mas frequentemente mantém os mesmos personagens responsáveis por fiscalizar governos, aprovar orçamentos, direcionar recursos e formular políticas públicas.
As eleições de 2026 mostraram novamente que, em Rondônia, a permanência política consegue sobreviver até mesmo a problemas que parecem permanentes.
Mudam os discursos, renovam-se as promessas e começam novos mandatos.
Mas, para boa parte da população, continuam as mesmas filas, as mesmas cobranças e as mesmas dificuldades.
E, pelo resultado das urnas, continuam também muitos dos mesmos políticos e desta vez o eleitor tem de engolir calado sem reclamar mais.