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porto velho, sexta-feira 8 de maio de 2026

BRASIL - A relação entre a obesidade e a queda de hormônios em homens, principalmente a testosterona, pode envolver muito mais fatores que apenas os números na balança. A reposição hormonal pode resolver problemas como perda de massa muscular, falta de libido e até mesmo alterações de humor, mas o acompanhamento médico se faz necessário para atender todo um contexto físico e biológico.
Existem muitas diferenças entre os efeitos de uma reposição hormonal no corpo de um homem e de uma mulher. "A reposição hormonal em mulheres e homens atende a contextos fisiológicos distintos", apontou Izabelle Gindri, PhD em Engenharia Biomédica pela UTD (University of Texas, Dallas), cientista, farmacêutica, cofundadora e CEO da Bio Meds Brasil, e especializada em reposição hormonal à CNN Brasil.
"No caso feminino, ela é mais comumente associada ao período da menopausa, quando há uma queda acentuada de hormônios como estrogênio e progesterona. O tratamento busca aliviar sintomas como ondas de calor, alterações de humor e perda de massa óssea, sendo geralmente temporário e cuidadosamente ajustado", seguiu.
"Já nos homens, a reposição de testosterona costuma estar ligada ao chamado hipogonadismo, quando o corpo produz níveis insuficientes desse hormônio. Ao contrário da transição relativamente previsível da menopausa, a queda hormonal masculina tende a ser mais gradual. O tratamento, nesse caso, pode ser mais prolongado e focado em sintomas como fadiga, perda de libido e redução de massa muscular", explicou Izabelle.
A farmacêutica apontou que homens podem enfrentar dificuldades para emagrecer na fase adulta caso lidem com algum tipo de desequilíbrio hormonal. "Os hormônios exercem papel central no metabolismo. A testosterona, por exemplo, contribui para a manutenção da massa muscular, um fator importante para o gasto calórico. Quando seus níveis estão baixos, o corpo tende a acumular mais gordura, especialmente na região abdominal, e a perder massa magra", afirmou.
Outras áreas da vida também podem ser afetadas por esse desequilíbrio. "Além disso, alterações hormonais podem interferir na sensibilidade à insulina, na qualidade do sono e até no apetite. Esse conjunto de fatores torna o emagrecimento mais difícil, mesmo com dieta e exercício. Por isso, em alguns casos, investigar o perfil hormonal pode ser decisivo para entender por que estratégias tradicionais não estão funcionando", declarou.
Gindri explicou que a reposição hormonal não é algo necessariamente definitivo para os homens, mas que pode ser algo contínuo, dependendo da indicação clínica. "Isso porque, ao iniciar o tratamento, o organismo pode reduzir ainda mais a produção natural de testosterona", explicou.
"Na prática, isso significa que muitos pacientes permanecem em acompanhamento de longo prazo, com aplicações ou uso regular de medicamentos em intervalos definidos, que podem ser semanais, quinzenais ou mensais, dependendo da forma prescrita. A decisão de manter, ajustar ou interromper o tratamento deve ser sempre baseada em avaliação médica, exames laboratoriais e resposta clínica", detalhou.
Em relação à saúde mental dos homens, a cientista afirmou que a obesidade pode causar alguns distúrbios, como baixa autoestima, ansiedade e até depressão. "Questões como estigma social, dificuldades em relações pessoais e percepção negativa da própria imagem corporal podem agravar esse quadro", declarou.
"Do ponto de vista biológico, o excesso de gordura corporal também está relacionado a processos inflamatórios e alterações hormonais, como a redução da testosterona, que podem influenciar o humor e os níveis de energia. O resultado é um ciclo complexo, em que fatores físicos e emocionais se retroalimentam, exigindo uma abordagem integrada no tratamento", concluiu.
Tratamento individualizado
Para Alexandre Hohl, diretor do Departamento de Endocrinologia Feminina, Andrologia e Transgeneridade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), os desequilíbrios hormonais em homens podem ter diferentes origens, como traumas, e o tratamento com reposições hormonais deve ser individualizado.
"As reposições constantes se aplicam a casos em que pessoas perdem os testículos em acidentes, ou se apresentam condições em que a testosterona não é produzida de forma eficiente, como na síndrome de Klinefelter ou em quem tem um tumor na hipófise, que comanda a produção de hormônios em todas as glândulas", explicou.
Hohl, além disso, fez uma relação entre o hipogonadismo masculino e o aumento da massa de gordura. "Homens com hipogonadismo masculino, que têm testosterona abaixo do nível normal de um adulto, podem ter uma série de alterações no seu corpo. Podem ter alterações, principalmente na função sexual, diminuição da libido e das ereções espontâneas, mas também pode ter outras alterações que não são específicas do hipogonadismo masculino, como aumento da massa gorda", apontou.
"Pode ter uma diminuição da massa magra e excesso de gordura visceral, e pode ter maior dificuldade de vir para um peso mais saudável se não tratar a condição, entendendo que o tratamento vem de uma estratégia com a questão alimentar, de atividade física e do sono, que impacta na vida de quem tem sobrepeso e quer emagrecer", declarou.
Para a psiquiatria, distúrbios psicológicos podem ter relação direta com a obesidade. "Do ponto de vista de impacto psicossocial ou de alto estilo, conforme vamos saindo daqueles modelos mais tradicionais – de homens não se preocuparem com o corpo, com o aspecto físico e com a saúde –, isso tem mudado com o tempo, faz com que tenha impacto bastante negativo no ponto psicológico no homem", avaliou Adriano Segal, psiquiatra da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso).
"Em termos de associação de doenças psicológicas, você tem uma associação maior em mulheres do que em homens, mas ainda assim você tem uma prevalência aumentada de transtornos psiquiátricos do sexo masculino que tenham obesidade", arrematou.