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porto velho, quarta-feira 11 de março de 2026
Há um fenômeno silencioso nos feeds de redes sociais: vídeos de resgate animal alcançam milhões de visualizações, comentários emocionados, engajamento genuíno. No mesmo scroll, notícias sobre guerras, assassinatos, fome, violência doméstica ou pessoas mortas nas ruas recebem uma fração dessa atenção. A explicação fácil seria dizer que “as pessoas ficaram frias” ou que são coisas desse mundo das “redes sociais”. Uma análise mais cuidadosa sugere que, talvez, amar gente tenha se tornado uma atividade de alto custo emocional e alto risco social.
Mas este não é um texto sobre animais de estimação, tampouco uma crítica moral a quem os ama. Pretende ser um diagnóstico de uma transformação social profunda envolvendo o fato de que o pet ocupou um vazio institucional que a vida moderna criou. Compreender esse movimento ajuda a entender não apenas o crescimento do afeto pelos animais, mas também o esgotamento das condições que tornavam o convívio humano minimamente seguro.
A Arquitetura do Convívio Mudou
O ser humano não mudou biologicamente nas últimas décadas. O que se transformou foi a arquitetura do convívio. Saímos de comunidades densas com família ampliada, vizinhança, associações, praças; para conexões líquidas como os feeds, mensagens diretas, grupos que se formam e evaporam, e bolhas que cristalizam verdades e laços de interesse. Temos mais contato, mas menos intimidade. Mais “amigos”, menos pessoas que conhecem nossa história ou se importam com ela.
Zygmunt Bauman chamou esse processo de modernidade líquida onde as relações são fáceis de entrar e sair, frágeis, sem compromisso duradouro. Robert Putnam documentou o colapso do capital social com menos associações, menos confiança, menos cooperação. Portanto, o fenômeno não é local nem geracional; é estrutural.
Nesse vazio, o animal de estimação entra como infraestrutura emocional. Ele oferece o que a vida moderna removeu, como, por exemplo, a rotina compartilhada, o toque físico diário, a presença sem performance, a responsabilidade que gera sentido. Não que o pet tenha substituído o filho ou o amigo; ele substituiu a comunidade. Controla a dor, reduz a ansiedade e evita o dissenso.
O Custo Relacional do Humano
Mas há um ponto que precisa ser dito: o afastamento afetivo do humano não ocorre apenas por cansaço simbólico; ele é alimentado por experiências reais de violência extrema. Homens que matam os próprios filhos após uma separação para punir a mãe (a chamada violência vicária) deixaram de ser casos isolados. Dados oficiais brasileiros passaram a registrar centenas de ocorrências desse tipo por ano, inclusive envolvendo brasileiras no exterior. Amar gente, nesse contexto, não é apenas difícil; pode ser devastador.
Pessoas em situação de rua seguem sendo espancadas, queimadas, assassinadas por desprezo ou diversão. Povos indígenas, defensores ambientais e comunidades inteiras são mortos por interesses ligados a terras raras, madeira, petróleo e garimpo. Relatórios internacionais mostram que o Brasil permanece entre os países com maior número de assassinatos de defensores da terra e do meio ambiente. Políticos e agentes econômicos seguem matando inocentes em nome do lucro e do poder, muitas vezes sob a proteção da impunidade.
Esses fatos não são desvios morais individuais. São sinais de falência institucional profunda. Quando o humano se torna imprevisível, violento ou descartável, amar gente deixa de ser apenas emocionalmente caro, como passa a ser arriscado.
Os relacionamentos contemporâneos carregam uma complexidade inédita. Vivemos sob o risco constante do “cancelamento íntimo”: uma frase fora de contexto, uma opinião impopular, um erro público e alguém vira vilão em minutos. A memória social não esquece; registra, compartilha, julga. Conviver virou negociar diferenças o tempo todo quais sejam políticas, religiosas, morais ou mesmo identitárias. Em ambientes polarizados, manter vínculos exige vigilância emocional permanente.
Soma-se a isso a assimetria silenciosa. Muitas relações são atravessadas por interesses ocultos, validação social, capital simbólico. A confiança virou exceção. Com pets, o contraste é imediato. O risco moral é zero. O animal não cancela, não expõe, não instrumentaliza afeto. “Baixo risco” não é ausência de dor; é ausência de tribunal e isso não é misantropia. Passa a ser gestão de energia emocional em ambiente hostil.
Amor Sem Política e Resposta Racional
Slavoj Žižek identificaria no pet o desejo contemporâneo de um “amor sem política”. Amar gente exige lidar com o outro real e suas contradições, traumas, interesses, poder. Amar bicho permite afeto sem negociação de mundo. É o último refúgio onde a vida não precisa virar tese. Byung-Chul Han observa que a sociedade do cansaço esgotou nossa capacidade de lidar com o outro. O pet não exige explicação, não julga, não politiza.
Há virtude e limite nisso. Quando removemos o conflito do amor, removemos o crescimento. A capacidade de lidar com a diferença, perdoar, negociar, suportar o imperfeito enfraquece. O pet é emocionalmente seguro, mas não desafia. E sem desafio, a musculatura moral atrofia.
Nassim Taleb lembra que sistemas sob estresse buscam estruturas que sobrevivem ao caos. Relações humanas modernas são frágeis. Relações com animais são antifrágeis porque crescem com rotina, cuidado, tempo e aliviam a culpa por nossa indisponibilidade emocional. Não estamos fugindo de gente; migramos para relações que não nos ferem.
A solução não é “voltar a gostar de gente” por decreto moral. É reconstruir as condições que tornaram o convívio humano possível: confiança, pertencimento, proteção institucional, direito ao erro. Criar microinstituições, recuperar a presença, tratar o amor como competência social. Quem convive apenas com animais pode perder o treino para lidar com a complexidade humana. Isso é devastador e não se trata de falta de bondade, mas por falta de estrutura.
Contrapontos
Richard Sennett lembra que a cooperação não é instinto, mas habilidade aprendida onde a convivência com o diferente exige prática contínua. Quando essa prática desaparece, a competência social atrofia. Assim, podemos considerar que o refúgio afetivo nos pets não nasce da indiferença, mas do desuso; quanto menos exercitamos a convivência humana, mais difícil ela se torna. O conforto emocional oferecido pelo animal reduz a necessidade de enfrentar fricções e, ao mesmo tempo, enfraquece a musculatura social necessária para lidar com elas.
Anthony Giddens descreveu a transformação da intimidade moderna como um campo de alto risco. Relações humanas passaram a ser organizadas em torno da autorrealização, mas sob condições instáveis e quando deixam de “funcionar”, a ruptura se torna esperada. O pet representa o oposto pois, na prática, é um vínculo sem expectativa de crescimento identitário, sem negociação de projetos de vida, sem risco de abandono simbólico. Ele conforta, mas não transforma. Não exige reinvenção constante do eu.
Michael Sandel acrescenta uma camada ética ao observar a mercantilização do afeto. Note-se que o mercado pet bilionário revela como o cuidado emocional passou a ser mediado pelo consumo. Em lugar de condenar o amor aos animais, seria melhor opção perguntar se, ao comprar conforto emocional, não estamos evitando o trabalho moral mais difícil? Que seria reconstruir relações humanas em um ambiente que deixou de protegê-las?
Esses contrapontos aprofundam o argumento central e não o negam. O apego aos animais é, ao mesmo tempo, sintoma de exaustão social, adaptação racional ao risco e sinal de uma competência relacional que enfraquece quando não encontra condições para existir.
Quando o risco vira estrutura
Talvez amar animais seja, de fato, a prova de que ainda sabemos amar e apenas desaprendemos a complexidade do humano. O risco de amar gente não é o problema. O problema começa quando o risco deixa de ser contingente e passa a ser estrutural. Quando não há escolha, mediação ou possibilidade de reorganização do vínculo, o afeto deixa de ser relação e passa a ser exposição.
Essa lógica se torna ainda mais evidente quando deslocamos o argumento do campo íntimo para o campo institucional. Em ambientes de trabalho marcados por hierarquias rígidas e baixa mobilidade, a convivência não é uma escolha, mas uma imposição. Pessoas são atreladas a outras por anos, às vezes décadas, sem possibilidade real de rejeitar, renegociar, interromper a relação ou elaborar níveis ótimo de cooperação. A depender da estrutura de gestão, o conflito não é resolvido; é administrado até se tornar crônico.
As universidades oferecem um exemplo emblemático desse processo. Estruturas pensadas para a estabilidade intelectual acabaram se tornando espaços de convivência compulsória, onde disputas simbólicas, interesses cruzados e assimetrias de poder se prolongam indefinidamente. A ausência de mecanismos claros de reorganização institucional transforma o risco relacional em condição permanente. Não se trata de indivíduos “difíceis”, mas de sistemas que não oferecem saída.
A literatura crítica sobre gestão universitária tem mostrado que muitos dos conflitos persistentes no ambiente acadêmico não decorrem de falhas individuais, mas de estruturas institucionais que transformam a convivência em obrigação sem mediação. A universidade contemporânea vive uma crise de governança marcada pela importação de modelos gerenciais que enfraquecem a autonomia coletiva e dissolvem os mecanismos tradicionais de negociação interna. Nesse contexto, o conflito deixa de ser processado institucionalmente e passa a ser vivido como desgaste pessoal prolongado.
Richard Sennett contribui para esse diagnóstico ao afirmar que a cooperação é uma habilidade social que depende de condições organizacionais favoráveis para se desenvolver. Ambientes que impõem convivência contínua sem espaços de recomposição relacional tendem a produzir retração, cinismo e isolamento estratégico. Quando a instituição falha em oferecer estruturas de escuta, mobilidade e reorganização, o risco relacional deixa de ser episódico e se torna estrutural e esse é, exatamente, o cenário observado em muitas universidades.
Assim, a toxicidade institucional não é resultado da presença de sujeitos “difíceis”, mas da ausência de dispositivos que permitam transformar conflito em aprendizado coletivo. A retração afetiva e a busca por microestruturas informais de pertencimento aparecem, nesse sentido, como respostas adaptativas a um ambiente que deixou de proteger o vínculo humano.
Diante disso, surgem arranjos paralelos de sobrevivência: grupos de pesquisa, projetos induzidos, redes interinstitucionais, isolamento de possíveis “concorrentes” ou “indesejáveis”. Esses espaços funcionam como zonas de porosidade porque aliviam pressões, criam afinidades eletivas, permitem algum grau de escolha. Mas, assim como o pet no plano afetivo, eles não substituem a base institucional; apenas tornam a permanência possível. A estrutura central permanece inconsistente, incapaz de sustentar vínculos sem desgaste contínuo.
Contexto local
Essa fragilidade se revela também na forma como profissionais são tratados em relação ao acesso à informação, aos processos decisórios e aos mecanismos de transição organizacional. A reestruturação de modelos como o fim dos departamentos acadêmicos na Universidade Federal de Rondônia ou a redefinição de funções, ocorre sem planejamento relacional, sem cuidado com os vínculos que sustentam o trabalho cotidiano ou a finalidade institucional. O resultado é previsível: retração, desconfiança, isolamento estratégico. Falta zelo.
Aqui, o argumento retorna ao ponto inicial deste texto: quando o humano se torna risco sem mediação, buscamos relações de baixo custo emocional e desmoralizamos princípios sociais inegociáveis.
No plano privado, isso aparece como apego aos animais. No plano institucional, se estabelecem como fuga para microestruturas informais tornando-se validado à margem do que a própria instituição pode ser ou é. Em ambos os casos, não se trata de incapacidade de amar, cooperar ou conviver, mas de adaptação racional a ambientes que deixaram de proteger o vínculo humano e alguém acha que pode resolver tudo sozinho. Esse, não gosta de gente... mesmo!
Saiba Mais.
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001. (Original: Liquid Modernity, Polity Press, 2000)
GIDDENS, Anthony. A Transformação da Intimidade: Sexualidade, Amor e Erotismo nas Sociedades Modernas. São Paulo: UNESP, 1993.
HAN, Byung-Chul. A Sociedade da Transparência. Petrópolis: Vozes, 2017. (Original: Transparenzgesellschaft, Matthes & Seitz, 2012)
HAN, Byung-Chul. A Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015. (Original: Müdigkeitsgesellschaft, Matthes & Seitz, 2010)
PUTNAM, Robert D. Bowling Alone: The Collapse and Revival of American Community. New York: Simon & Schuster, 2000.
SANDEL, Michael J. O Que o Dinheiro Não Compra: Os Limites Éticos do Mercado. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2013.
SENNETT, Richard. Juntos: Os Rituais, os Prazeres e a Política de Cooperar. Rio de Janeiro: Record, 2012.
TALEB, Nassim Nicholas. Antifrágil: Coisas que se beneficiam com o caos. Rio de Janeiro: Best Business, 2014. (Original: Antifragile: Things That Gain from Disorder, Random House, 2012)
TELLES, Lisieux Elaine de Borba; SOROKA, Paulo; MENEZES, Ruben de Souza. Filicídio: de Medéia a Maria. Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, v. 30, n. 1, p. 81–84, 2008. SciELO Brasil
ŽIŽEK, Slavoj. Living in the End Times. London: Verso, 2010.
ŽIŽEK, Slavoj. Violence: Six Sideways Reflections. New York: Picador, 2008.
Outras dicas:
A inimputabilidade dos pais homicidas: as falhas no ordenamento. Repositório DSpace, Universidade Presbiteriana Mackenzie, [s.l.], [s.d.]. Trabalho de conclusão; disponível em: https://dspace.mackenzie.br/ha...
Life, Death and Silencing: Legal Discourses on Filicide. Artigo acadêmico, [s.l.], [s.d.]. Disponível em: https://www.biblioteca-academi...
População em situação de rua no Brasil cresce e enfrenta violência e invisibilidade. Agência Brasil, Brasília, [s.d.]. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com....;
Hunger and the defense of homeless in Brazil. The Lancet Regional Health – Americas, [s.l.], [s.d.]. Comentário/estudo sobre vulnerabilidade e saúde da população em situação de rua. Disponível em: https://www.thelancet.com
Crime and violence in Brazil – statistics & facts. Statista, [s.l.], [s.d.]. Página de estatísticas sobre homicídios, feminicídios e violência no Brasil. Disponível em: https://www.statista.com
At least 146 land and environmental defenders killed or disappeared globally in 2024. Global Witness, [s.l.], 2025. Relatório anual sobre assassinatos de defensores ambientais. Disponível em: https://www.globalwitness.org
Relatório da Global Witness registra assassinatos de defensores ambientais. Business & Human Rights Resource Centre, [s.l.], [s.d.]. Resumo e contextualização em português sobre mortes de defensores no Brasil e na América Latina. Disponível em: https://www.business-humanrigh...
Mapa Nacional da Violência de Gênero. Senado Federal / Observatório da Mulher contra a Violência, Brasília, [s.d.]. Plataforma interativa com dados oficiais, incluindo seção sobre violência vicária. Disponível em: https://www.senado.leg.br/inst...;