Confúcio ressurge competitivo; há quem defenda maluquices como as de Collor até hoje; e os 'oráculos' das eleições estão de volta
Por Robson Oliveira
25/07/2026 11:00:40 - Atualizado
ROBSON OLIVEIRACRESCENDO
A partir desta semana, a Coluna Resenha Política passa a ser publicada três vezes por semana: às terças, quintas e sábados. A mudança acompanha o ritmo acelerado do processo eleitoral, período em que os fatos se sucedem com rapidez, alianças se redesenham, crises surgem de um dia para o outro e decisões capazes de alterar os rumos da disputa acontecem em questão de horas.
LEITORES
Para manter os leitores bem informados e oferecer análises sobre os acontecimentos enquanto ainda repercutem nos bastidores e no debate público, ampliamos temporariamente nossa periodicidade. Encerrado o processo eleitoral, a coluna retomará seu formato habitual, com duas publicações semanais.
FENÔMENO
Existe uma lei não escrita da política segundo a qual a razão costuma abandonar o recinto quando as campanhas eleitorais entram na fase decisiva. É justamente nesse momento que a matemática eleitoral cede lugar aos ciúmes, às vaidades e às intrigas palacianas. E poucas situações ilustram melhor esse fenômeno do que as chapas que lançam dois candidatos ao Senado.
BRIGAS
A teoria partidária recomenda união. A prática, contudo, produz competição interna. É inevitável. Afinal, embora o eleitor disponha de dois votos para senador, dirigentes, prefeitos, deputados e financiadores quase sempre elegem um favorito. O outro passa a disputar não apenas os votos do adversário, mas também espaço dentro da própria legenda.
DISSENSO
É exatamente esse ambiente que começa a se desenhar no PL do senador Marcos Rogério. Os descompassos entre os grupos que gravitam em torno de Fernando Máximo e Bruno Scheid já são perceptíveis. Nos eventos partidários e nas articulações de bastidores, cresce a impressão de que Máximo desfruta de maior prestígio entre os dirigentes, enquanto Bruno Scheid observa, nem sempre discretamente, a preferência alheia.
FISSURAS
Essa assimetria dificilmente permanecerá restrita aos corredores do partido. À medida que a campanha ganhar intensidade, os ruídos tendem a se transformar em declarações públicas, insatisfações veladas e, eventualmente, rachaduras difíceis de esconder. E aí reside a ironia política: ao privilegiar um dos seus candidatos, o partido pode acabar enfraquecendo justamente a possibilidade de conquistar as duas vagas ao Senado.
SABOTAGEM
Há quem sustente que uma única legenda ou federação dificilmente elege ambos os senadores. A história eleitoral realmente mostra que isso é raro. Mas transformar essa dificuldade em profecia autorrealizável, sabotando um dos próprios candidatos antes mesmo da largada, parece uma estratégia tão inteligente quanto furar os pneus do carro antes de iniciar a corrida. O fenômeno não é exclusividade do PL.
SINTOMAS
Na federação formada por PP e União Brasil, que lançou a deputada federaL Sílvia Cristina e a ex-deputada federal Mariana Carvalho ao Senado, os sintomas também começam a aparecer.
CRÍTICAS
A intensa movimentação política de Sílvia Cristina, que vem costurando apoios inclusive entre prefeitos e lideranças alinhadas a outros projetos para o Governo de Rondônia, tem provocado desconforto interno. Nos bastidores, surgem críticas de que a parlamentar estaria ultrapassando os limites do seu campo político.
EQUÍVOCO
A consequência é previsível: abre-se espaço para que setores da federação passem a concentrar esforços na candidatura de Mariana Carvalho, filha de Aparício Carvalho, numa tentativa de equilibrar - ou redirecionar - a disputa interna. O curioso é que parte dessa irritação decorre de um equívoco elementar sobre a lógica das eleições majoritárias.
PONTES
Quem disputa uma vaga ao Senado não pode limitar-se ao cercado do próprio partido. É uma campanha estadual, extremamente cara e politicamente exigente. Para vencer, o candidato precisa construir pontes, ampliar seu espectro eleitoral e buscar votos onde eles estiverem. Isso significa dialogar com prefeitos, vereadores e lideranças que, muitas vezes, apoiam candidatos diferentes ao Governo do Estado. Não há nisso qualquer heresia política.
SOBREVIVÊNCIA
Traição seria pedir votos para o adversário ao governo ou trabalhar deliberadamente contra a própria chapa. Buscar apoios além das fronteiras partidárias é sobrevivência eleitoral, não infidelidade.
PERIGO
Até o momento, não há registro de infidelidade dos candidatos ao Senado em relação aos postulantes ao Governo. O que existe é o velho esporte praticado nos bastidores: a fabricação industrial de desconfianças. E é justamente aí que mora o verdadeiro perigo.
ESTRAGO
Toda campanha produz um personagem quase folclórico: o profissional do leva-e-traz. É aquele que atravessa corredores carregando versões, insinuações e fofocas cuidadosamente temperadas para alimentar vaidades e provocar rompimentos. Nunca chega dizendo que inventou uma história. Sempre começa com um inofensivo "estão comentando..." ou "me disseram que...". Quando se percebe, o estrago já foi feito.
DANOSO
Na política, o fogo amigo continua sendo o mais devastador dos incêndios. Não produz fumaça visível no início, mas consome estruturas inteiras antes que alguém encontre o extintor. É silencioso, traiçoeiro e altamente inflamável. Quase sempre provoca mais danos do que o ataque da oposição.
MAXIMIZAÇÃO
Aliás, não existe absolutamente nada de extraordinário em um candidato ao Senado receber apoio de prefeitos comprometidos com outro candidato ao Governo. Tampouco surpreende que candidatos a deputado estadual e federal componham alianças regionais diferentes daquelas firmadas pelas direções partidárias. Essa engenharia eleitoral acompanha a política brasileira há décadas e decorre da necessidade prática de maximizar votos em cada região.
IDIOTA
Quem desconhece essa dinâmica talvez nunca tenha participado de uma campanha. Quem a conhece e ainda assim transforma essa realidade em motivo para guerra interna provavelmente está mais interessado em disputar poder dentro do partido do que vencer a eleição. É um idiota.
MAESTRIA
Em razão de tudo isso, quem demonstrou conhecer profundamente essa mecânica foi o senador Confúcio Moura (MDB). Pacientemente, segurou até o último momento o anúncio de sua candidatura à reeleição. Enquanto muitos antecipavam movimentos e alimentavam disputas domésticas, Confúcio costurava silenciosamente, junto às direções partidárias, a construção de uma candidatura praticamente única em torno do seu projeto, retirando da disputa outras pretensões que haviam sido lançadas inicialmente.
PROFISSIONALISMO
O resultado foi evidente: evitou ruídos, neutralizou o fogo amigo e entrou na disputa com o terreno cuidadosamente preparado. Como ensina o velho adágio, política é para profissionais. E, gostem ou não de seu estilo, Confúcio continua sendo um dos mais habilidosos operadores da política rondoniense.
TRAIÇOEIRO
Seu método sempre foi o mesmo: age sorrateiramente, quase sempre longe dos holofotes, mas com uma eficiência que poucos adversários conseguem antecipar. Quem atravessa seu caminho acaba, mais cedo ou mais tarde, obrigado a abrir passagem para que ele passe primeiro. Seja pela imposição, seja pela capacidade de antecipar movimentos e ocupar espaços antes dos demais.
FENIX
Foi assim que, depois de ser tratado por parte da imprensa como um personagem em fim de carreira – inclusive esta coluna, ressurgiu politicamente. Renasceu das cinzas e reapareceu na corrida eleitoral tão competitivo quanto aqueles que estão em plena pré-campanha. Para muitos observadores, chega à disputa até com certo favoritismo.
JOGO
Aparentemente, existe uma contradição. Confúcio figura entre os políticos de maior rejeição no Estado e, ao mesmo tempo, permanece entre os mais competitivos. Mas política não é um exercício de lógica cartesiana. É um jogo de organização, articulação, tempo e estratégia. Popularidade ajuda; habilidade, muitas vezes, decide.
DERROTA
No fim das contas, adversários externos sempre existirão. O problema começa quando os partidos resolvem fabricar seus próprios inimigos dentro de casa. A oposição agradece. Afinal, poucas estratégias são tão eficientes quanto assistir, confortavelmente, aos adversários consumirem a si mesmos antes mesmo da abertura das urnas. Quem não compreende essa regra elementar termina derrotado pelo próprio exército. E, na política, quase sempre é o fogo amigo que reduz primeiro um projeto eleitoral a cinzas.
BOLA CRISTAL
Nesta época do calendário eleitoral, brotam por todos os lados os especialistas em futurologia. Bastam algumas conversas de bastidor, um café com meia dúzia de políticos ou uma pesquisa de circulação restrita para que apareçam os "oráculos" das eleições, distribuindo prognósticos sobre quem será eleito deputado estadual ou federal. É um exercício divertido, mas intelectualmente tão confiável quanto escolher os números da Mega-Sena guiado pelos sonhos da noite anterior.
VARIÁVEIS
Tentar antecipar o resultado das eleições proporcionais é uma tarefa ingrata. São inúmeras as variáveis que influenciam o desempenho de uma candidatura: o tamanho e a qualidade das nominatas, a distribuição regional dos votos, a força financeira das campanhas, as alianças municipais, o engajamento das bases, o humor do eleitor e, principalmente, os fatos novos que surgem durante a campanha. Não vale a pena enumerá-las uma a uma porque, invariavelmente, a realidade sempre inventa uma variável que ninguém havia considerado. Isso não significa, porém, que seja impossível desenhar alguns cenários. Uma vez que alguns nomes são bons de votos e são bem articulados em suas bases.
GEOGRAFIA
É razoável imaginar que parlamentares com mandato carreguem vantagens naturais pela visibilidade conquistada nos últimos quatro anos. Da mesma forma, ex-prefeitos que encerraram seus mandatos recentemente entram na disputa trazendo capital político acumulado em seus municípios. Há ainda candidatos que, em eleições anteriores, atuavam apenas como financiadores ou articuladores de campanhas e agora decidiram disputar pessoalmente um mandato. São personagens que alteram completamente a geografia eleitoral e tornam qualquer previsão ainda mais arriscada.
SOBERBA
Quem acredita possuir uma lista definitiva dos futuros eleitos talvez desconheça a principal característica das eleições proporcionais: elas costumam humilhar a soberba dos analistas. A cada pleito, nomes considerados imbatíveis ficam pelo caminho, enquanto candidaturas tratadas como figurantes acabam surpreendendo nas urnas.
REALIDADE
Se há uma previsão que parece menos temerária, é a de que a Assembleia Legislativa deverá passar por uma renovação mais expressiva do que imaginam os adivinhos de plantão. Há deputados estaduais que enfrentam desgaste político, perda de bases eleitorais ou concorrência mais qualificada em suas regiões. Outros simplesmente descobrirão que mandato não é patrimônio hereditário nem garantia de emprego por quatro anos adicionais.
DESEMPENHO
Na bancada federal, o cenário também aponta para mudanças naturais. Parte dos atuais deputados deverá disputar outros cargos, abrindo espaço para novos nomes. Outros precisarão enfrentar o julgamento do eleitor sobre o desempenho apresentado durante o mandato. E haverá ainda aqueles que encontrarão pela frente concorrentes com campanhas mais estruturadas, maior capacidade de mobilização e nominatas mais competitivas.
TERMÔMETRO
No fim das contas, a urna continua sendo o único instituto de pesquisa infalível. Até lá, toda previsão é apenas uma hipótese - algumas bem fundamentadas, outras produzidas com o mesmo rigor científico de quem consulta borras de café ou lê o futuro nas cartas de baralho. Na política, como na vida, a única certeza é que as eleições sempre encontram uma maneira criativa de desmoralizar quem tem excesso de convicção antes da abertura das urnas.
LOROTA
Há quem trate política econômica como quem ensina motorista de primeira viagem: basta girar o volante com força e dar um cavalo de pau que o país muda de direção. A história, porém, costuma ser implacável com os aventureiros. Fernando Collor acreditou nisso ao confiscar poupanças e recursos privados, deixando milhões de brasileiros sem chão e sem confiança. O remédio virou veneno, e o governo terminou atropelado pela própria ousadia. A lorota não deu certo, mas tem quem defenda a maluquice nos dias de hoje.
EQUILÍBRIO
Economia não se governa no grito nem na base do improviso de mesa de bar. Exige equilíbrio entre política fiscal, monetária, crédito, emprego e confiança. Por isso, antes de decretar desastre ou milagre, convém estudar os fundamentos macroeconômicos.
CURANDEIRISMO
A mais recente pesquisa Genial/Quaest, por exemplo, aponta melhora na percepção da economia e recuperação de indicadores de aprovação do governo, ainda que outros índices permaneçam divididos. Quem vende solução instantânea para problemas estruturais normalmente oferece a mesma receita dos antigos curandeiros: muito espetáculo, pouca ciência e, quase sempre, a conta fica para o contribuinte.
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