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porto velho, quinta-feira 12 de fevereiro de 2026

O que até poucos anos atrás soaria como delírio político começa a ganhar contornos concretos no tabuleiro mineiro. Em nome da sobrevivência eleitoral e do controle de estruturas partidárias, antigas fronteiras ideológicas são dissolvidas sem constrangimento. O caso mais emblemático é o do senador Rodrigo Pacheco, indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva como seu nome preferido para a disputa pelo governo de Minas Gerais.
Para viabilizar o projeto, Pacheco acertou sua saída do PSD rumo ao União Brasil com um objetivo claro: assumir o controle da legenda no estado e montar, sem intermediários, o próprio palanque. O movimento abre espaço para uma articulação que, até recentemente, seria considerada politicamente radioativa: colocar Lula, PT, o ex-governador Aécio Neves e o ex-deputado Eduardo Cunha no mesmo palanque. Cunha, atualmente sem partido, transferiu seu domicílio eleitoral para MG e pretende disputar uma vaga de deputado federal.
Vai assumir a presidência do União Brasil em Minas Gerais o deputado federal Rodrigo de Castro, filho de Danilo de Castro, ex-braço direito de Aécio Neves nos governos do PSDB. Entre 2003 e 2015, Danilo ocupou a Secretaria de Governo do Estado e foi um dos principais articuladores políticos da gestão tucana.
A estratégia de Pacheco passa por reunir personagens que, por décadas, simbolizaram projetos antagônicos de poder em Minas e no Brasil. De um lado, o Partido dos Trabalhadores; de outro, Aécio Neves, ex-governador e principal liderança do PSDB mineiro. O que antes era antagonismo virou variável de negociação.
Aécio surge como peça-chave desse arranjo. Pode ser candidato a vice-governador ou disputar uma das duas vagas ao Senado. O cálculo é frio: peso político, recall eleitoral e capilaridade partidária ainda contam — mesmo que o custo simbólico seja elevado.
Aécio Neves construiu sua trajetória como antagonista histórico do PT. Foi governador, presidenciável e símbolo do antipetismo. Hoje, reaparece como possível vice ou candidato ao Senado em uma chapa patrocinada, direta ou indiretamente, por Lula.
O PT, por sua vez, aceita flertar com esse arranjo após anos de enfrentamento público com o grupo tucano. O recado ao eleitor é direto: princípios tornam-se negociáveis quando o objetivo é derrotar Romeu Zema e interromper o ciclo do Novo em Minas.
Antes de oficializar sua candidatura ao Palácio Tiradentes, Pacheco aguarda uma conversa direta com Lula. O encontro é tratado como decisivo para liberar o senador a iniciar, sem ambiguidades, as negociações para formar uma chapa de oposição ao governador Romeu Zema (Novo), que deve lançar como sucessor o atual vice, Mateus Simões (PSD).
O apoio do presidente é visto como ativo central. Sem ele, a engenharia política perde tração; com ele, alianças improváveis deixam de ser tabu.
Além do PT, Pacheco busca atrair o MDB, comandado em Minas por Newton Cardoso Júnior. O desenho é clássico do chamado “centro ampliado”, onde divergências históricas são suspensas em nome de um objetivo comum: derrotar o projeto de Zema.
Nesse cenário, instala-se uma disputa silenciosa — e feroz — por espaço na chapa. Há uma vaga de vice-governador e duas cadeiras ao Senado em jogo. Todos querem sentar à mesa; poucos terão lugar.