• Fundado em 11/10/2001

    porto velho, quarta-feira 29 de julho de 2026

Psiquiatra alerta que vício em bets se alastrou pelo Brasil: "Estamos no meio de um tsunami"

Hermano Tavares, explica que o ato de apostar ativa o cérebro da mesma forma que o álcool e o tabaco, tornando o jogo online um hábito de alto risco


ig

Publicada em: 28/07/2026 10:16:17 - Atualizado


Referência nacional no estudo e tratamento da dependência em jogos de azar, o psiquiatra e professor Hermano Tavares é fundador e coordenador do Ambulatório do Jogo Patológico do Hospital das Clínicas da USP, serviço pioneiro criado ainda nos anos 1990 no combate à ludopatia no país.

    Em entrevista nesta segunda-feira (27) ao programa Roda Viva, o especialista da USP abordou o avanço acelerado das apostas onlin e no Brasil, alertando que o mecanismo neurobiológico das bets ativa o cérebro da mesma forma que drogas como álcool e cigarro.

    O psiquiatra ressalta que o serviço especializado em ludopatia criado por ele no final dos anos 1990 já atendia a uma "primeira onda", à época dos caça-níqueis e bingos.

    O cenário atual, impulsionado pelas apostas online e pela grande exposição publicitária, é classificado por ele como uma "segunda onda" muito mais grave, definindo o momento como o "meio de um tsunami".

    Cassino no bolso

    Tavares enfatiza que o indivíduo não precisa mais sair de casa e está muito mais rápido para apostar. O usuário pode jogar no próprio quarto, no ambiente de trabalho ou em uma pausa rápida no banheiro para "fazer uma fezinha", pois o cassino está virtualmente na palma da mão, "a dois cliques de distância ou à distância do braço até o bolso da calça".

    A facilidade de acesso em escala populacional expõe diretamente um maior número de pessoas vulneráveis, sobrecarregando a busca por tratamento médico e psiquiátrico.

    A mente e o hábito

    Tavares explica que tanto o álcool quanto a aposta funcionam como formadores de hábito.

    Apostar ativa o sistema nervoso central através de um mecanismo psicológico idêntico ao de substâncias como álcool, tabaco ou outras drogas. Por essa razão, a aposta não é um "produto ordinário", já que o próprio ato de apostar gera vontade de apostar ainda mais.

    A Ilusão do "Jogo Responsável"

    O psiquiatra contesta a ideia tradicional de "jogo responsável", comparando-a com avisos de "beba com moderação" nas campanhas de bebidas alcoólicas.

    Ele destaca que tais slogans acabam delegando e terceirizando a responsabilidade do problema inteiramente para o consumidor, eximindo quem promove ou vende.

    O especialista define a expressão "jogo/aposta responsável" como uma contradição e reforça que apostar é brincar com dinheiro e qualquer brincadeira com impacto financeiro deixa de ser algo inofensivo.

    Quem quer ser verdadeiramente responsável não aposta; e quem deseja ser menos irresponsável deve apostar pouco, afirma Tavares

    Responsabilidade Tripla

    O psiquiatra defende que a responsabilidade em relação às apostas deve ser compartilhada por três partes:

    Apostador: Pela regulação e consciência individual;
    Estado: Responsável por informar a população, prover tratamento na rede pública e regulamentar a atividade;

    Indústria do Jogo (Provedor): Responsável por não promover o jogo como fonte de renda/ganho financeiro e por retirar das plataformas mecanismos induzentes, como a falsa percepção de controle sobre os resultados.


    Fale conosco