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porto velho, sexta-feira 3 de julho de 2026

CRÔNICA DE FIM DE SEMANA
Entre o ouro e o esquecimento: a história dos garimpeiros
*Arimar Souza de Sá
Houve um tempo em que Porto Velho acordava ao ronco das voadeiras e adormecia sob o brilho amarelado do ouro retirado das águas barrentas do rio Madeira.
Era a década de 1970. O garimpeiro chegava à cidade com a pele marcada pelo sol, as mãos calejadas pelo trabalho e alguns gramas de ouro no bolso. E bastava isso para movimentar uma economia inteira. Não havia shopping centers, grandes redes comerciais ou os edifícios que hoje desenham a paisagem da capital. Havia o rio. E havia o ouro em abundância.
O comércio prosperava. Os hotéis da Sete de Setembro viviam lotados. Os restaurantes atravessavam a madrugada servindo refeições. Os taxistas trabalhavam sem descanso. Lojas vendiam rádios, televisores, geladeiras e motocicletas pagas com pequenas pepitas embrulhadas em papel de cigarro.
Os mais antigos ainda contam que até os programas nos cabarés da cidade eram acertados em ouro, pesado em pequenas balanças sobre balcões gastos pelo tempo e pelas histórias.
Porto Velho cresceu assim. Não apenas pelos trilhos da Madeira-Mamoré ou pela presença dos servidores públicos que chegaram para construir o então território. Cresceu também sobre os ombros dos homens do garimpo, personagens decisivos na formação econômica e social de Rondônia.
Hoje, porém, muitos desses homens parecem ter sido empurrados para outra categoria: a do feroz inimigo. É evidente que o garimpo precisa de regras. O mundo mudou. A proteção ambiental tornou-se uma exigência civilizatória e ninguém em sã consciência defende a destruição dos rios e das florestas.
Mas também é verdade que o Estado brasileiro jamais conseguiu construir uma regulamentação clara, segura e definitiva para milhares de trabalhadores que vivem dessa atividade há décadas.
Ficaram presos no limbo. Nem plenamente autorizados, nem formalmente proibidos. Nem empresários, nem criminosos. E é justamente nesse vazio que florescem os conflitos.
As imagens das operações na Amazônia frequentemente provocam perplexidade. Dragas explodidas, balsas incendiadas, tratores destruídos e estruturas reduzidas a escombros acabam despejando óleo diesel, gasolina e resíduos exatamente nas águas que se pretendia proteger.
A contradição é evidente: Combate-se a degradação produzindo outra degradação. Preserva-se destruindo. E duas perguntas permanecem no ar: por que destruir máquinas e equipamentos antes do esgotamento do direito de defesa de seus proprietários? E por que não os destinar ao poder público, em vez de transformá-los em sucata e cinzas?
Nesta semana, o episódio ocorrido em Novo Progresso, no Pará, reacendeu o debate. A operação terminou com pessoas feridas, entre elas uma criança de apenas 12 anos.
Independentemente das investigações e das versões que ainda serão esclarecidas, uma pergunta continua ecoando sobre os rios da Amazônia: Em que momento o Estado passou a tratar trabalhadores pobres da floresta como inimigos em território ocupado e ninguém se levanta para defende-los?
A floresta precisa ser protegida. Os rios precisam ser preservados. A lei precisa ser cumprida. Mas a dignidade humana não pode se tornar vítima colateral das operações estatais. Porque o homem que busca sustento no rio continua sendo, antes de tudo, um homem.
Talvez envelhecido. Talvez esquecido. Mas ainda um homem. Um homem que ajudou a erguer Rondônia quando quase ninguém olhava para esta terra. E talvez resida aí a maior ironia desta história.
O ouro que um dia iluminou Porto Velho não desapareceu apenas do fundo dos rios. Desapareceu também da memória daqueles que deveriam reconhecer os antigos garimpeiros como parte da própria fundação deste Estado.
Um Estado que, durante décadas, recolheu impostos, riqueza e desenvolvimento produzidos pelo ouro do Madeira, hoje parece não reconhecer os homens que ajudaram a retirar esse ouro do fundo do rio.
Pior do que esquecê-los, é tratá-los como bandidos, sem o sagrado direito de defesa.
Lamentavelmente.
Amém.
* O autor é jornalista, advogado e apresentador do Programa A VOZ DO POVO, da Rádio Rondônia FM, 103,1.