• Fundado em 11/10/2001

    porto velho, quinta-feira 9 de julho de 2026

Isolamento no campo agrava depressão entre produtores rurais, diz pesquisador

Segundo o pesquisador, a realidade encontrada durante quatro anos de estudos revelou um cenário de abandono, especialmente entre agricultores idosos...


Redação

Publicada em: 09/07/2026 14:33:36 - Atualizado

Foto - Rondonoticias

PORTO VELHO, RO - Apresentado pelo jornalista e advogado Arimar Souza de Sá, o programa A Voz do Povo desta quinta-feira (09/07) recebeu o professor e escritor Osvaldo dos Anjos. Doutor e mestre em Gestão Ambiental, graduado em Geografia e especialista em Educação Ambiental, o pesquisador falou sobre os desafios enfrentados pela agricultura familiar na Amazônia e apresentou resultados de pesquisas que apontam o crescimento dos transtornos mentais entre produtores rurais.

Ao longo da entrevista, Osvaldo dos Anjos afirmou que a agricultura familiar continua sendo responsável por grande parte da segurança alimentar do país, mas criticou a falta de atenção do poder público às famílias que vivem no campo.

"A agricultura familiar hoje está responsável pela segurança alimentar do país, principalmente na Amazônia. Porém, os governantes se preocupam muito com a produção. Não se preocupam com quem está produzindo", afirmou.

Segundo o pesquisador, a realidade encontrada durante quatro anos de estudos revelou um cenário de abandono, especialmente entre agricultores idosos que permanecem sozinhos nas propriedades depois que os filhos deixam o campo em busca de melhores oportunidades.

"O governo olha para o produto final, mas não para o produtor. Os filhos vão embora para estudar ou buscar qualidade de vida e os pais ficam sozinhos. É aí que começam os problemas de saúde mental", explicou.

Durante a entrevista, Osvaldo destacou que um dos principais desafios é justamente criar políticas públicas capazes de manter as novas gerações no meio rural. "Os filhos não permanecem porque faltam escolas melhores, serviços de saúde e oportunidades. Eles procuram a cidade, enquanto os pais envelhecem e permanecem isolados", disse.

Ao abordar os impactos psicológicos desse processo, o pesquisador revelou que sua pesquisa identificou um aumento significativo dos chamados transtornos mentais comuns entre trabalhadores rurais. "O produtor entra em depressão. Os filhos vão embora e ele perde o apoio familiar. A pandemia agravou ainda mais esse cenário", afirmou.

Foto - Rondonoticias

Questionado sobre os sinais observados durante o trabalho de campo, Osvaldo descreveu comportamentos recorrentes entre agricultores que desenvolveram quadros depressivos. "Começam a deixar de cortar o cabelo, de cortar as unhas, perdem a vontade de tomar banho, de comer, deixam de cuidar da propriedade e até da própria higiene. Muitos nem sabem que estão vivendo um quadro de depressão", relatou.

O pesquisador também chamou atenção para a ausência de programas específicos voltados à saúde mental da população rural. Segundo ele, embora existam ações de assistência técnica voltadas à produção agrícola, praticamente não há políticas públicas direcionadas ao acompanhamento psicológico desses trabalhadores.

"A extensão rural existe, mas, quando o assunto é saúde mental, praticamente não há assistência. O produtor continua isolado e sem acompanhamento", ressaltou.

Outro ponto destacado durante a entrevista foi o protagonismo feminino na agricultura familiar. Conforme Osvaldo, em muitas propriedades as mulheres acabam assumindo a administração da produção diante dos problemas enfrentados pelos companheiros.

"Muitas famílias hoje são conduzidas pelas mulheres. Em vários casos, o marido acaba enfrentando problemas relacionados ao alcoolismo, e elas assumem toda a responsabilidade pela propriedade e pela família", afirmou.

Ao encerrar a participação no programa, o pesquisador reforçou que fortalecer a agricultura familiar vai além de incentivar a produção de alimentos. Para ele, é necessário investir na permanência das famílias no campo, ampliar o acesso à saúde, à educação e criar políticas públicas que combatam o isolamento social e os transtornos mentais que atingem milhares de trabalhadores rurais na Amazônia.

ASSISTA A ENTREVISTA AO VIVO AQUI:



Fale conosco