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    porto velho, sexta-feira 31 de julho de 2026

CRÔNICA DE FIM DE SEMANA - Azul e o voo da resignação dos rondonienses

Quando uma sociedade passa a considerar normal pagar cada vez mais por um serviço cada vez pior, o desrespeito deixa de ser exceção e passa a fazer parte do bilhete...


Redação

Publicada em: 30/07/2026 20:00:15 - Atualizado

Foto: Rondonoticias

CRÔNICA DE FIM DE SEMANA

Azul e o voo da resignação dos rondonienses

*Arimar Souza de Sá

Houve um tempo em que viajar de avião era mais do que percorrer quilômetros. Era atravessar fronteiras com dignidade. O embarque carregava certa solenidade; o passageiro sentia que havia adquirido um serviço, e não apenas alugado alguns centímetros de um assento espremido dentro de um cilindro de alumínio.

O jantar era servido quente. Havia talheres de metal, sobremesa, café e, nos voos mais longos, um copo de uísque oferecido com a elegância de quem compreendia que conforto também faz parte da viagem. Voar era uma experiência; hoje, tornou-se um exercício de sobrevivência.

A aviação brasileira conseguiu uma façanha rara: transformar evolução tecnológica em involução no atendimento. Cobra-se cada vez mais para entregar cada vez menos. É como se o passageiro financiasse o desmonte do próprio serviço que consome.

Em Rondônia, essa realidade ganha contornos ainda mais cruéis. As passagens figuram entre as mais caras do país. Os voos são escassos, os horários limitados e o conforto parece ter desembarcado em alguma escala perdida pelo caminho.

As poltronas desconfortáveis encolheram. O espaço para as pernas desapareceu como uma fotografia antiga esquecida na gaveta. Reclinar o banco transformou-se em um delicado exercício diplomático com quem está atrás. O serviço de bordo praticamente foi extinto: um pacote de goma de mascar, um amendoim, um copo de água ou um café servido às pressas. Se houver turbulência, nem isso. O carrinho de bordo, que antes simbolizava hospitalidade, hoje transporta apenas a lembrança do que um dia existiu.

Para quem está acima do peso, a situação é ainda mais penosa. Permanecer horas em poltronas estreitas, rígidas e sem espaço para movimentação transforma uma simples viagem em um teste silencioso de resistência física, também para o passageiro ao lado. O relógio desacelera, o corpo reclama e cada minuto parece durar mais do que o previsto no cartão de embarque.

Na última semana, vivi novamente essa realidade. Passei alguns dias em Brasília e, no retorno para Porto Velho, enfrentei o roteiro conhecido por milhares de rondonienses. O voo da resignação. A Azul continua obrigando o passageiro a fazer escala em Belo Horizonte: cerca de uma hora até a capital mineira, outra hora de espera e, somente depois, mais três horas e meia até Porto Velho. Uma viagem que parece desenhada por quem nunca precisou fazê-la. É impossível não enxergar a contradição — e o deboche.

Rondônia produz riqueza, movimenta bilhões no agronegócio, na piscicultura, na indústria e no comércio. É um estado estratégico para a Amazônia e para o Brasil. Depende do transporte aéreo para manter conexão com os grandes centros. Ainda assim, recebe um tratamento incompatível com sua importância econômica. Quanto mais relevante se torna para o país, menor parece ser sua prioridade para as companhias aéreas.

Mas existe algo ainda mais preocupante do que a precariedade dos voos: o silêncio. As autoridades parecem ter embarcado no voo da conformidade. Não há mobilização consistente, pressão institucional ou articulação política capaz de enfrentar um mercado cada vez mais concentrado. Surgem, vez ou outra, discursos inflamados nas redes sociais que desaparecem com a mesma velocidade com que o avião recolhe o trem de pouso. Enquanto isso, o passageiro continua pagando a conta. E paga caro.

Ora, não se reivindica luxo. Ninguém exige o retorno dos grandes jantares servidos a bordo ou dos tempos em que um copo de uísque fazia parte da experiência de voar. O que se cobra é muito mais elementar: respeito.

Respeito ao consumidor que desembolsa valores elevados para viajar.

Respeito ao estado que ajuda a movimentar a economia nacional.

Respeito aos cidadãos que não podem ser tratados como passageiros de segunda categoria simplesmente porque vivem longe dos grandes centros.

O mais inquietante, porém, talvez seja outra constatação. Rondônia parece ter perdido até a capacidade de se indignar. Aceita, sem protesto, voos escassos, conexões intermináveis, tarifas abusivas e um serviço que encolhe na mesma velocidade em que crescem os lucros das companhias aéreas. Como água morna, a mediocridade anestesia aos poucos. E a resignação, quando se instala, costuma ser mais perigosa do que qualquer turbulência.

No fim das contas, o voo que realmente preocupa não é o da aeronave. É o voo da nossa resignação. Quando uma sociedade passa a considerar normal pagar cada vez mais por um serviço cada vez pior, o desrespeito deixa de ser exceção e passa a fazer parte do bilhete.

Ou então descobrir que o respeito virou bagagem extraviada. Saiu do plano de voo das companhias aéreas, desapareceu antes mesmo do embarque e jamais desembarcou em Rondônia.

É tempo de protesto!

AMÉM!

*O autor é jornalista, advogado e apresentador do Programa A VOZ DO POVO, da Rádio Caiari, FM, 103,1.


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