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porto velho, sexta-feira 20 de fevereiro de 2026

PORTO VELHO-RO: Apresentado pelo jornalista e advogado Arimar Souza de Sá, o programa A Voz do Povo desta sexta-feira (20) recebeu a médica infectologista e secretária adjunta de Estado da Saúde de Rondônia, Mariana Bragança, que falou sobre doenças tropicais amazônicas com foco no vírus Mpox.
Durante a entrevista, Mariana Bragança destacou que Rondônia, por estar inserida no contexto amazônico, convive historicamente com endemias próprias da região. Entre elas, a malária continua sendo um desafio permanente. “Nunca conseguimos erradicar completamente a malária, justamente porque vivemos em uma região onde o mosquito transmissor está presente de forma contínua”, explicou.
Segundo a infectologista, há casos assintomáticos que mantêm o ciclo da doença, além de registros em áreas de fronteira, o que dificulta o controle total. Apesar disso, houve avanços significativos no tratamento. Antes, o esquema tradicional incluía cloroquina e primaquina por até 14 dias; depois, o período foi reduzido para sete dias para melhorar a adesão. Atualmente, já existem medicamentos de dose única, aumentando as chances de controle efetivo.
Além da malária, a médica ressaltou a incidência de dengue, chikungunya e a sazonalidade dos vírus respiratórios, como influenza e Covid-19, especialmente no período chuvoso. “Com as chuvas e as aglomerações, como festas de fim de ano e Carnaval, os vírus circulam com mais facilidade. Isso está dentro do esperado para a época”, afirmou.
Sobre a Mpox, Mariana Bragança esclareceu que o vírus não é novo. Descrito em 1958, ganhou relevância internacional a partir de 2022, quando passou a circular fora da África com maior intensidade. No Brasil, está presente desde 2022, e Rondônia já registrou casos naquele mesmo ano.
Atualmente, o estado notificou seis casos suspeitos, sendo quatro confirmados e dois descartados após exames laboratoriais realizados no próprio território, por meio do laboratório central.
A doença é caracterizada por lesões de pele que evoluem de manchas para bolhas com secreção e posterior formação de crostas. A transmissão ocorre principalmente por contato direto com essas lesões, inclusive em relações sexuais, mas também pode acontecer por contato íntimo prolongado, como beijo e abraço.
“A Mpox não está restrita a grupo de risco. Qualquer pessoa pode se contaminar se tiver contato com alguém infectado”, enfatizou, alertando para o risco de preconceito e subnotificação.
Embora, na maioria dos casos, seja autolimitada e se resolva entre duas e quatro semanas, a doença pode apresentar complicações, especialmente em gestantes, crianças e pessoas imunossuprimidas. Desde 2022, o Brasil registrou cerca de 14 mil casos e 18 óbitos.
Mariana Bragança também destacou o papel do Centro de Medicina Tropical de Rondônia como referência no atendimento de doenças infectocontagiosas no estado. A unidade atende desde malária e leishmaniose até acidentes ofídicos, dengue grave e casos mais complexos de vírus respiratórios.
Segundo ela, a rede pública está preparada para diagnóstico precoce e acompanhamento. Pacientes com lesões suspeitas devem procurar imediatamente uma unidade básica de saúde. Confirmado o caso, a vigilância epidemiológica acompanha o paciente e seus contatos por até 21 dias.
Ao final da entrevista, a infectologista reforçou que o cenário epidemiológico de Rondônia exige vigilância constante, informação de qualidade e responsabilidade coletiva. “Vírus não surgem no Carnaval. O que aumenta é a aglomeração. E onde há contato próximo, há maior chance de transmissão. Informação e prevenção continuam sendo nossas maiores aliadas”, concluiu.