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porto velho, quarta-feira 26 de fevereiro de 2025
MUNDO: Um dos autores de Como as Democracias Morrem, ao lado de Daniel Zyblatt, o cientista político americano Steven Levitsky é taxativo ao abordar a situação política da Venezuela.
“As pessoas falam de uma crise da democracia venezuelana. A democracia da Venezuela está morta, e está morta há quase 20 anos”, diz o renomado professor da Universidade Harvard.
Pesquisador das democracias pelo mundo e dos países latino-americanos, Levitsky trata o regime de Nicolás Maduro como uma “ditadura completa”. “Era um regime autoritário brando na primeira década do século 21.”
Para Levitsky, “devemos pensar que a antiga democracia do século 20 está morta e os venezuelanos precisam construir uma nova agora”.
“Mas derrubar uma ditadura estabelecida e consolidada como a venezuelana é difícil. A oposição venezuelana, que cometeu muitos erros no passado, fez tudo certo nesta eleição. Forçaram o governo Maduro a se envolver na mais escandalosa fraude eleitoral da história moderna da América Latina.”
Ao avaliar a postura da diplomacia e do governo brasileiro em buscar um papel de mediação nesse conflito, Levitsky diz compreender a postura “cautelosa, silenciosa e pragmática”, mas aponta os riscos dessa posição e o quanto o tempo é um fator crucial.
“Entendo o desejo de manter um assento à mesa. Mas, em algum momento, o governo brasileiro tem que perceber que, se não for conseguir nada remotamente parecido com a democracia, se não for conseguir uma transição, se o governo Maduro não ceder nada, muito menos o poder, em algum momento, os brasileiros precisarão agir”, aponta o cientista político.
“Caso contrário, terão um assento à mesa no meio de um campo de concentração, e ninguém quer isso.”
Ao analisar o apelo do populismo diante de democracias não tão consolidadas como a dos países desenvolvidos, Levitsky reconhece que o descontentamento público em questões como insegurança, corrupção e má qualidade dos serviços públicos, além da desigualdade social, exercem um papel relevante.
“Quando os eleitores ficam desapontados com governos após governos, ficam frustrados e recorrem a figuras como Bukele (El Salvador), Chávez (Venezuela), Corrêa (Equador) ou Milei (Argentina), que dizem que vão acabar com tudo”, avalia.
Com as redes sociais, mesmo figuras de países menores, como El Salvador, se tornam referência, como é o caso de Bukele.
“Há uma espécie de transnacionalização. Ativistas do Partido Republicano sabem tudo sobre Milei, sendo que a maioria deles, há dez anos, não sabia nem onde a Argentina ficava no mapa.”
“Todas as nossas democracias, tirando o Uruguai, estão lidando com esse problema de muito descontentamento e a constante ascensão de candidatos personalistas que chegam ao poder denunciando o sistema”, considera Levitsky.
“Alguns desses caras matam a democracia: Bukele, Fujimori, Chávez”, cita Levitsky.
“Pode ser que as democracias, sociedades, instituições tenham que se acostumar a uma política mais fluida, uma política mais personalista. Temos que aprender a fortalecer as instituições democráticas para que possamos conviver com um certo grau de populismo, porque não acho que vamos eliminá-lo.”