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porto velho, sexta-feira 12 de junho de 2026

CRÔNICA DE FIM DE SEMANA - Santo Antônio, o “Santo Casamenteiro” e as travessuras da minha infância em Porto Velho
*Arimar Souza de Sá
Hoje é dia de Santo Antônio. Não qualquer santo. É o santo das promessas, dos corações inquietos, dos pedidos sussurrados entre uma esperança e outra. É, sobretudo, o mais famoso casamenteiro que o povo brasileiro já conheceu.
A ironia é que o homem que ganhou fama por arranjar casamentos morreu solteiro. Tornou-se frade ainda jovem e dedicou a vida à fé. Mas a tradição popular resolveu lhe dar uma missão extra: encontrar marido para as moças aflitas e socorrer os namoros dos marmanjos que andavam tropeçando pelo caminho.
E assim nasceu a lenda.
Para muitos, Santo Antônio, que nasceu em Portugal, mora no céu. Para outros, nas igrejas. Mas, para quem cresceu em Porto Velho, especialmente nas ruas da velha Baixa da União, ele mora mesmo é na memória afetiva.
Mora naquele tempo em que a cidade parecia caber dentro de um abraço, as noites eram mais longas e os amigos pareciam irmãos escolhidos pela vida.
Naqueles anos, Santo Antônio chegava antes do calendário. Bastava a primeira bandeirinha colorida atravessar a Rua do Coqueiro para a criançada entender que junho havia desembarcado no bairro. E junho, na Baixa da União, era quase um estado de espírito.
As fogueiras eram mensageiras da alegria. Em frente às casas, os quitutes disputavam espaço, atenção e gula. O cheiro do milho assado percorria as ruas como um convite irresistível. A sanfona derramava felicidade pelas esquinas, enquanto as mesas se enchiam de canjica, bolo de macaxeira, mungunzá, paçoca, pé-de-moleque e tantas outras delícias capazes de fazer qualquer dieta pedir férias.
Ah, as festas daquele tempo...
O terreiro, com o pau de sebo nas alturas, virava palco de um espetáculo que dispensava televisão, celular ou internet. As crianças corriam livres. Os adultos esqueciam as contas, os problemas e as preocupações. E os foguetes riscavam o céu de Porto Velho como se anunciassem que a felicidade havia decidido passar uma temporada entre nós.
Nas quadrilhas, a alegria reinava absoluta.
As moças surgiam com vestidos coloridos, laços nos cabelos e sorrisos tímidos. Os rapazes, de chapéu de palha e calças remendadas, tentavam impressionar as damas com uma elegância que só existia nas festas juninas. O padre aparecia disposto a casar, o noivo fugia, a noiva chorava, o delegado prendia e Gonzagão resolvia tudo no compasso do forró. Era uma felicidade simples. E justamente por isso, tão imensa.
Também era o tempo das simpatias.
As moças que se consideravam “encalhadas” não tinham pena do pobre Santo Antônio. Havia quem o colocasse de cabeça para baixo em um copo d’água até que o milagre acontecesse. Outras escondiam o Menino Jesus de seus braços para pressionar o céu a colaborar. Algumas escreviam nomes em papéis dobrados, consultavam a bananeira, pingavam cera de vela na água para descobrir as iniciais do futuro pretendente ou faziam promessas dignas dos romeiros mais obstinados.
Nem sempre funcionava. Mas a esperança permanecia acesa, firme como as fogueiras que iluminavam as noites da minha juventude. No fundo, o que valia mesmo era a folia.
Santo Antônio também foi cúmplice das primeiras paixões.
Era quando a filha do vizinho começava a parecer mais bonita. Quando a menina que vinha de outro bairro para dançar quadrilha roubava todos os olhares. Quando um simples sorriso fazia o coração disparar mais rápido que um rojão em noite de festa.
E como éramos felizes.
Talvez porque tivéssemos menos ganâncias e mais histórias. Menos pressa e mais tempo. Menos telas e mais conversa. Menos concreto e mais céu estrelado sobre as ruas da Baixa da União.
Hoje, Porto Velho cresceu. Os bairros mudaram. Os costumes também. A cidade ganhou avenidas, prédios e novos horizontes. Muitas tradições foram se recolhendo ao silêncio do tempo e perderam parte do brilho de outrora.
Mas basta junho chegar e uma sanfona tocar ao longe para que a memória abra suas janelas. Então voltam os amigos, as brincadeiras, o cheiro da fogueira, o gosto da canjica e aquela Porto Velho que talvez exista apenas nas lembranças, mas continua viva dentro de quem teve o privilégio de crescer vivendo essa dádiva.
Por isso, neste dia de Santo Antônio, agradeço ao santo casamenteiro, guardião dos apaixonados e cúmplice dos nossos segredos e melhores recordações. Que ele continue unindo corações, renovando esperanças e nos lembrando que a verdadeira riqueza da vida mora nos momentos simples que carregamos para sempre na alma.
E se você procura um grande amor neste Dia dos Namorados, não custa nada fazer uma simpatia e dar uma ‘moralzinha’ ao santo casamenteiro. Vai que ele ainda continua na ativa, costurando destinos e espalhando surpresas pelos caminhos da vida.
Será que não chegou a hora da sua?
Pague para ver. Viva Santo Antônio!
É tempo de recordação.
Amém!
* O autor é jornalista, advogado e apresentador do Programa A VOZ DO POVO, da Rádio Caiari FM, 103,1.